
Não raro, a exposição de uma opinião aparentemente polêmica é iniciada com um pedido de desculpas, mesmo que essa opinião seja baseada em dados irrefutáveis. Ora, desculpas devem ser pedidas após a consumação de um ato e – mais que isso – o ato deve ser ofensivo.
Portanto, não pedirei desculpas pelo que tenho a dizer (nem agora e nem após a conclusão deste texto), pois tratarei de algo rotineiro que está aí à vista de todos.
Qual a qualidade do trabalho de um professor que leciona três turnos diários (as famosas 60 horas semanais)?
Antes de você responder a esse questionamento, lembremos o argumento mais comum dessa espécie de professor: “Trabalho com uma carga horária tão excessiva, porque ganho mal; e o salário de 40 horas (dois turnos) não dá para pagar minhas contas”.
De fato, o professor brasileiro recebe um salário ínfimo, apesar da importância que ele tem na sociedade, da responsabilidade de trabalhar com mentes em formação e da exposição ao estresse intenso. Contudo, o erro dos “patrões” (governo e iniciativa privada) não serve como justificativa para que se cometa outro erro.
Tal erro é que o professor que está em classe pela manhã, tarde e noite não tem tempo para elaborar coerentemente planos de aulas e outros projetos relacionados ao seu trabalho. Aliás, não sobra tempo para elaborar nada que se refira à prática em sala de aula. Esquecem-se de que a docência é uma das poucas profissões em que o serviço é feito no local de trabalho (sala de aula) e fora dele.
E quem perde com isso são os alunos. Sim, sabemos que muitos deles não querem “nada com a vida”. Entretanto, isso não deve ser levado em conta, quando decidimos a forma como devemos trabalhar. Ganhamos para dar aulas, não é? E, com certeza, ela deve ser dada para os alunos exemplares e os rebeldes indistintamente.
Em vez de permanecer dia e noite na sala de aula para receber uma remuneração relativamente melhor, o “professor 60 horas” poderia estabelecer metas de crescimento na carreira. Em outras palavras, seria mais correto e digno abdicar de um turno e dedicar algumas horas a cursos de capacitação ou pós-graduação. Desse modo, num futuro a médio prazo, o trabalho seria feito nas horas normais que a saúde humana pode suportar e, além disso, receberia o salário de 60 horas lecionando menos que isso.
Por fim, lembremos que no que concerne a ministrações de aulas, excesso não é sinônimo de eficiência. Pelo contrário, é seu antônimo. Em outras palavras, o professor diuturno não tem condição para desenvolver um trabalho de qualidade. Portanto, “professor 60 horas”, reflita sobre isso... se sobrar tempo.
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