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Professora Gurgel: as lições de luta pela dignidade profissional

17 de setembro de 2011





O vídeo com o depoimento da professora Amanda Gurge repercutiu na internet a ponto de torná-la conhecida em todo o Brasil. O motivo: de forma segura e destemida, ela defendeu a Educação Pública na Câmara Legislativa do Rio Grande do Norte, quando se debatia a greve dos docentes estaduais. Os professores paralisados formavam a plateia. E a mesa era composta por alguns deputados, pela secretária de Educação e pelo promotor de justiça.

Após a secretária de Educação pedir paciência e tolerância, Amanda respondeu que isso é sempre solicitado durante as greves dos professores. Mas que estes chegam a esperar vinte anos para receberem uma promoção, e muitos morrem sem ter seu pedido deferido. E concluiu esse ponto de sua fala dizendo: “Então eu quero pedir a secretária paciência também, pois nós não aguentamos mais esse discurso.”

Essa destemida professora tem razão. Sempre que os professores estão em greve, os governantes ou seus representantes fazem uso da imprensa para “pedir” que os educadores considerem a situação dos alunos, “os mais prejudicados com a paralisação”. Em primeiro lugar, a greve não significa dias perdidos, mas suspensos: as aulas são sempre repostas e o ano letivo de 200 dias, exigido legalmente, é garantido.

A segunda razão é que a maior parte dos políticos que comandam o País não dá a importância devida aos estudantes. Nas postagens A Escola do Pé de Caju e Empecilhos à Educação foi abordado esse tema. As autoridades públicas sempre relegam os estudantes a segundo plano. De outro modo, não veríamos escolas públicas funcionando precariamente: há excesso de alunos nas salas, enquanto existe escassez de carteiras e de materiais básicos; em muitas unidades escolares, falta merenda (por desleixo, incompetência ou corrupção). Portanto, tais danos fazem parte da rotina do aluno há décadas, e os governantes nunca praticaram mea-culpa. Ou seja, jamais admitiram publicamente que, devido ao descaso público, os estudantes são prejudicados.

Pelo contrário, diante das câmeras de TV, os políticos utilizam-se da retórica para convencer a população de que os professores estão prejudicando os alunos em virtude da greve. Assim, os docentes, que lutam por melhorias salariais e por condições de trabalho mais dignos, transformam-se injustamente em réus. E os governantes em heróis de “cara de pau”.

Amanda Gurgel abordou ainda o fardo imposto ao professor de ser a “salvaguarda” da educação brasileira. Atributo perverso e incoerente, pois lhes faltam “poderes” até mesmo para “salvaguardar” o espaço das salas de aula superlotadas – como já dito –, inseridas em escolas caóticas e carentes de investimentos. E, não raro, para suprir a ausência desses materiais, o docente tem que lançar mão do minguado salário a fim de que as aulas ocorram com menos prejuízo. Por esse motivo, indignada diante da solicitação da secretária de Educação, segundo a qual os professores têm que pensar a longo prazo no que se refere às suas melhorias salariais, Gurgel respondeu: “A secretária disse que devemos pensar a longo prazo, mas minha necessidade de alimentação é imediata. A minha necessidade de transporte é imediata. A necessidade de educação de qualidade é imediata”.

A situação vista acima é a reprodução do mito do professor sacerdote, que já foi desmistificado em um artigo do Painel do Educador. A maior parte da sociedade brasileira concebe os professores como aquele ente que se sacrifica em prol da educação; por isso, se passam por dificuldades no seu dia-a-dia profissional é porque o fardo é inerente à sua função. Os governantes, aproveitando-se dessa concepção popular equivocada, não desenvolvem políticas para a melhoria das condições de trabalho do professor, muito menos em termos salariais. E como a população não vê problema nenhum no dia a dia do professor, não há problema para ser resolvido; daí, quem está no poder foca-se em questões que despertam o interesse da massa votante.

Quase sempre, quando os professores mobilizam-se em vias públicas, a imprensa aparece, mas não com o objetivo de destacar o fato em si, mas informar ao telespectador que, devido ao protesto, o trânsito está congestionado. Os políticos, por sua vez, usam o poder em massa da imprensa para representar o papel de defensores do eleitorado, cujos filhos precisam estudar, mas “não podem porque os docentes estão em greve”.

Já aos professores, pouca oportunidade se dá para demonstrar as reais causas das paralisações e para apresentar, sem maquiagem, o caos das escolas públicas causados por ingerência governamental. Felizmente, com o caráter difusor e democrático da internet, os professores têm uma oportunidade de proclamar sua voz para todos os ouvirem, como fez a professora Amanda Gurgel, representante de todos os educadores, saturados com o descaso com que são tratados pelas autoridades políticas.

Professor Valdeir