Nem precisamos consultar o dicionário para sabermos o que significa a expressão mal-assombrada.
Na maioria das vezes, esse adjetivo vem acompanhado do substantivo casa, para indicar que ela é assustadora, moradia de seres fantasmagóricos. Mas alguém já parou para pensar que em mal-assombrada existe uma redundância de termos? E que tal redundância gera um efeito contrário à intenção?
Observemos:
Mal: aquilo que é negativo, nocivo.
Assombrado: espantoso, assustador.
Logo, quando dizemos que a casa é mal-assombrada, colocamos em dúvida a reputação dos fantasmas. Eles não exercem convenientemente seu ofício de assustar quem ousa invadir a moradia. Portanto, a palavra deveria ser “bem-assombrada” (ou seja, bastante assombrada, aterrorizante).
O próprio dicionário traz registros que comprovam essa tese, como mal-apessoado (pessoa que tem má-aparência), mal-aventurado (infeliz), mal-humorado (irritado)
Mas deixemos como está: o fascínio da linguagem humana é justamente a brincadeira com as palavras, ainda que isso gere vocábulos aparentemente contraditórios. E mesmo brincando, o falante (ou escrevente) é compreendido pelo interlocutor, ou seja, a comunicação foi estabelecida.
P.S.: Os dicionários não criam palavras. Eles registram termos usados recorrentemente pelos usuários da língua. Muitas vezes, achamos que uma determinada palavra do dicionário jamais foi proferida por alguém. Mas é engano. Temos essa impressão, porque há vocábulos que caem em desuso com o tempo; e outros que são utilizados em campos científicos ou profissionais que desconhecemos.
Imagem: stock.xchng


